Arquivo Professor Barbedo

Produtor, 1975 – 2000


Este fundo documental resulta da atividade desenvolvida ao longo de 32 anos pelo Prof. António Pinto Barbedo de Magalhães, Professor Catedrático Jubilado da FEUP e Professor Emérito da Universidade do Porto, a favor da causa da autodeterminação e independência de Timor-Leste.

O fundo é constituído por documentação sobre as Jornadas de Timor e outras iniciativas relacionadas com Timor-Leste da Universidade do Porto, da Resistência Timorense, das organizações de solidariedade, documentos oficiais, artigos, relatórios, publicações periódicas, gravações áudio e vídeo, etc. que ocupam cerca de 120 metros lineares de prateleiras

O fundo documental foi organizado, em primeira instância, em função dos objetivos políticos do trabalho de solidariedade desenvolvido em função das necessidades da luta pela autodeterminação. O vários níveis estruturais e documentais refletem essa lógica, agrupando documentos produzidos em contextos e iniciativas que partilhavam um objetivo comum (por ex. assunção por Portugal das suas responsabilidades, apoio ao movimento pró-democracia na Indonésia, etc.). Outras séries refletem uma organização arquivística mais tradicional, agrupando documentos do mesmo tipo (imprensa, documentos audiovisuais, etc.).

  • Unidades Documentais

  • Descrição
    • Tipo de entidade Pessoa

    • Código parcial APB
    • Data de produção 1975 – 2000
    • Data de existência 1975 – 2000
    • Funções, ocupações e actividades

      Curriculum Vitae
      de
      António Pinto Barbedo de Magalhães

      Nasceu em Fevereiro de 1943 na cidade da Horta, Faial, Açores, para onde seu pai, Manuel Barbedo de Magalhães, foi mobilizado em 1941, como oficial de Engenharia, antes de ser transferido para a ilha Terceira, onde trabalhou, com gosto e afinco, como democrata que era, na construção da Base Aérea das Lajes que tão útil foi aos Aliados na guerra contra a Alemanha nazi.

      Tendo nascido neste quadro, o autor lutou pela democracia, sendo um dos 101 subscritores do «Testemunho de Alguns Católicos», manifesto publicado em 1965 contra a guerra colonial e a falta de liberdades democráticas em Portugal.

      Formou-se em Engenharia Mecânica na FEUP, em 1968, com 17 valores, apesar de ter trabalhado durante parte do curso, nomeadamente numa empresa metalomecânica. Foi imediatamente convidado para lecionar na Faculdade de Engenharia onde foi docente do Departamento de Engenharia Mecânica de 1968 até fazer 70 anos, em 2013, altura em que, por limitação legal de idade, se jubilou.

      Doutorou-se na Universidade de Gand, na Bélgica, em 1973, em Ciências Aplicadas, na área da Metalurgia, com a Máxima Distinção.

      É autor de cinco patentes de invenção de processos tecnológicos na área da fundição.

      Em 2004 propôs uma componente pedagógica inovadora na FEUP, os projetos PESC (Projetar, Empreender e Saber Concretizar), depois estendidos a toda a UP com a designação de Projetos Lidera, com o objetivo de facilitar e promover o desenvolvimento das capacidades transversais de trabalho em equipa multidisciplinar, de liderança e de empreendedorismo dos alunos.

      É Professor Emérito da Universidade do Porto, por decisão unânime do Senado de 22 de Janeiro de 2014.

      Iniciou o seu serviço militar em Janeiro de 1974 e foi mobilizado para Timor em Outubro desse ano. Estando já doutorado, coordenou o trabalho de uma equipa luso-timorense que elaborou um projeto para a reestruturação do ensino em Timor, com vista a uma eventual independência a médio prazo.

      Foi membro da CDPM (Comissão para os Direitos do Povo Maubere), da APJTL (Associação Paz e Justiça para Timor-Leste) e da Comissão Organizadora das Jornadas de Timor da Universidade do Porto, tendo organizado numerosas conferências em Portugal, Alemanha, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Brasil e outros países.

      Lecionou nos cursos de licenciatura em Relações Internacionais da Universidade de Coimbra e de licenciatura em História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi docente convidado, em sucessivos anos, no European Master Degree in Human Rights and Democracy da Universidade de Coimbra e no Curso de Mestrado em Relações Interculturais da Universidade Aberta. Foi professor do Curso de Pós-Graduação em Estudos Orientais da Universidade Católica, em Lisboa. Organizou vários cursos livres sobre Timor-Leste e a Indonésia e fez numerosas comunicações sobre esses temas.

      É autor de sete livros sobre Timor, o último dos quais, editado pela Afrontamento em 2007, tem 3 volumes (1000 páginas) e cerca de mais 10 000 páginas em documentos anexos, sobre a história política de Timor desde 1942 até 2007 (ISBN: 978-972-36-0935-6). Escreveu numerosos artigos, relatórios e brochuras sobre Timor Leste e a Indonésia.

      Pelo seu trabalho em prol da causa de Timor-Leste, foi agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique (Grande Oficial), em 10 de Junho de 2000, pelo Presidente da República Jorge Sampaio e com a Ordem de Timor, em 20 de Maio de 2012, pelo Presidente da República Democrática de Timor-Leste Taur Matan Ruak.

      Trabalhos e iniciativaa relacionados com Timor-Leste de 1975 a 2000

      1975 – Coordenou a Reestruturação do Ensino em Timor.

      De Janeiro a Maio de 1975 foi o Coordenador da Comissão para a Reestruturação do Ensino em Timor, constituída por dois timorenses e dois portugueses e mais um representante de cada força política timorense, que elaborou um projeto para e reformulação do ensino em Timor, tendo em vista a descolonização e autodeterminação do território. Este projeto foi aprovado pelo Governador de Timor, em Maio de 1975, depois de ouvidas as forças políticas timorenses e a Comissão de Descolonização.
      A seguir à aprovação do projeto, coordenou a Comissão Executora da Reestruturação do Ensino em Timor, com uma participação rapidamente crescente de timorenses. A preparação de professores para o novo modelo educativo começou em 4 de agosto de 1975, na Escola Salesiana de Fatumaca, com cursos de reciclagem para capatazes agrícolas, carpinteiros e serralheiros. Eles iriam receber treino pedagógico para se tornarem professores das disciplinas práticas e profissionalizantes ou para integrar equipas itinerantes que deviam ajudar as escolas a lançar a prática agrícola e outros programas educativos de natureza prática.
      Estava marcado para 11 de Agosto de 1975, um dia depois da tomada de posse da primeira administração regional eleita democraticamente, o início, em Dili, dos Cursos de Reciclagem de Agentes do Ensino Primário e do Ciclo Preparatório. Estes cursos representavam a grande arrancada da reestruturação do ensino em Timor, que suscitou tanto entusiasmo que levou quatrocentos e sessenta professores e monitores a se inscreverem.
      Infelizmente, na noite de 10 para 11 de Agosto de 1975, teve lugar um golpe da UDT contra a administração portuguesa, com a tomada de assalto do aeroporto, da emissora de rádio e outors pontos nevrálgicos e com alguns mortos. Deixou de haver condições de segurança e os cursos não puderam ter lugar.
      Na brochura que Barbedo de Magalhães escreveu, em sucessivas edições, a última das quais em 2004, se descreve o projeto, a sua construção e abrupto cancelamento na hora em que ia começar a sua concretização (BARBEDO DE MAGALHÃES, A, DESCOLONIZAÇÃO DO ENSINO EM TIMOR. Testemunho de uma tentativa de descolonização do ensino em Timor, de acordo com um projeto elaborado em 1975, por uma comissão mista luso-timorense e cuja concretização foi abruptamente interrompida pela instabilidade política entretanto gerada.)

      1981-1982 – Desenvolveu intenso trabalho junto de todos os grupos parlamentares para acordar Portugal para o risco iminente do desaparecimento da questão de Timor da agenda da ONU.

      Quando, em Julho de 1981, ao fim de seis anos de divergências, Barbedo de Magalhães conseguiu, finalmente, o acordo do Representante da FRETILIN em Portugal, para trabalhar numa base diferente da que esta força política sempre tinha exigido, isto é, reconhecimento de que Portugal era, ainda, Potência Administrante do Território Não Autónomo de Timor, em vez do reconhecimento da declaração unilateral da independência pela FRETILIN feita em 28 de Novembro de 1975, reconhecimento da FRETILIN como um dos legítimos representantes do Povo Timorense, em vez do reconhecimento da FRETILIN como o único legítimo representante do Povo Maubere, manifestou a sua disposição de dar tudo por tudo para que a autodeterminação fosse possível. Em 1979 tinham caído todas as Bases da Resistência, destruídas pelas forças ocupantes indonésias e não desde essa altura não havia notícias da Resistência no território. A situação era de tal maneira desesperada que a liderança da FRETILIN aceitou cooperar num trabalho de solidariedade baseado no oposto do que durante seis anos tinha insistentemente exigido e, com ela, a generalidade da solidariedade portuguesa e internacional. Aliás as próprias Nações Unidas, nessa altura, o que procuravam, nas colónias dos países ocidentais, era encontrar movimentos de libertação que identificasse como legítimos para lhes entregar o poder.

      Sentia-se já, no ar, e sobretudo a partir de Outubro de 1981, que o Governo Português estava a começar a preparar a opinião pública portuguesa para uma previsível derrota na votação sobre Timor prevista para o Outono de 1982 na Assembleia Geral das Nações Unidas, que abriria o caminho ao desaparecimento, da agenda da ONU, da questão do genocídio timorense, da anexação pela Indonésia e da autodeterminação do Território.

      Obtido o acordo do representante máximo da FRETILIN em Portugal, Barbedo de Magalhães começou, logo, em Agosto, a entabular contactos com o Parlamento Europeu, aproveitando umas férias que fez na Bélgica e Holanda. Regressado a Portugal, logo que a Assembleia da República reabriu as suas atividades, Barbedo de Magalhães começou a contactar os diversos grupos parlamentares para tentar que fizessem alguma coisa que impedisse a continuação da inoperância dos sucessivos governos de Portugal e impedisse a derrota nas Nações Unidas.

      Ao fim de oito meses de contactos com deputados de todas as bancadas, foi, finalmente, possível realizar, em 8 de Maio de 1982, uma Mesa Redonda sobre Timor Leste, uma Responsabilidade a Assumir na Escola Superior de Belas Artes do Porto.
      Foi a primeira reunião de deputados de todos os partidos com assento parlamentar (nessa altura eram nove, e nenhum faltou) para tratar da questão de Timor-Leste.
      Graças ao esforço conjugado de Barbedo de Magalhães com o Deputado Manuel Tilman, timorense, membro da Assembleia da República pela ASDI, e de outros deputados dos mais diversos quadrantes políticos, foi possível criar, em 1982, a primeira Comissão Eventual da Assembleia da República para Acompanhamento da Situação de Timor.
      Foi extremamente importante o trabalho desta Comissão, primeiro na denúncia do genocídio em curso em Timor, e, depois, na constatação de que os sucessivos Governos, ao contrário do que o Primeiro-ministro da altura dizia, nada tinham feito na ONU para a defesa dos direitos dos timorenses. Foi graças a esse trabalho e a essa denúncia que o Governo se viu obrigado, no Verão de 1982, a enviar emissários a mais de quarenta países a pedir apoio para uma proposta de resolução a apresentar na Assembleia-Geral da ONU.
      Pela primeira vez, o texto votado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas em 3 de novembro de 1982, foi subscrito, também, por Portugal, e , embora por uma margem de apenas quatro votos, foi aprovado (Resolução 37/30). O resultado deixou a Indonésia e seus parceiros tão desapontados com este desfecho que nunca mais quiseram que fosse votada qualquer resolução sobre Timor.

      Foi no quadro dessa fundamental resolução de 1982 que, em Maio de 1999, os governos de Portugal e da Indonésia assinaram, em Nova Iorque, o acordo que abriu espaço ao referendo de autodeterminação realizado em Timor-Leste em 30 de Agosto de 1999, sob os auspícios da ONU e que conduziu à independência de Timor-Leste. (Ver: António Barbedo de Magalhães – Portugal e Timor-Leste, os anos críticos de 1960 a 1999, in Povos e Culturas, nº 19, 2015, Timor-Leste e Portugal: Cinco Centúrias de Relacionamento; ISSN 0873-5921)

      1983-1999 – Foi um dos fundadores, animadores e dirigentes a Associação Paz e Justiça para Timor-Leste, para informar cristãos e a hierarquia das igrejas Católica e Protestantes sobre o drama do Povo Timorense.

      Entre 1983 e 1999 editou e divulgou numerosos boletins da Associação Paz e Justiça para Timor-Leste. Além disso foi o autor de Foi o autor de diversos artigos na Voz Portucalense, o semanário da diocese do Porto.

      1989-1998 – Foi o principal organizador, no quadro das Jornadas de Timor da UP, de iniciativas para mobilizar meios académicos e políticos, nacionais e internacionais, para a solidariedade com o Povo de Timor.

      No quadro das Jornadas de Timor da Universidade do Porto, a cuja Comissão Organizadora, criada em 1989, pertenceu, com o Reitor Professor Alberto Amaral e com o Pró-Reitor Nuno Grande organizou sucessivas Jornadas. Algumas destas Jornadas duraram vários dias, outras estenderam-se ao longo de meses e, as 7ªs e últimas jornadas duraram mais de dois anos, com numerosas conferências, debates, e outras iniciativas, muitas das quais no estrangeiro:

      1989.09 - 1ªas Jornadas – ‘História e Cultura dos Timorenses’ - com o objetivo de pôr timorenses da FRETILIN e da UDT a dialogar uns com os outros.

      1990.04 a 1990.05 – 2ªs Jornadas – ‘Timor-Leste Terra de Esperança’ - numa fase de dificuldades na frente diplomática da Resistência, para ajudar a ultrapassá-las.

      1991.05 – 3ªs Jornadas – ‘Timor-Leste, Portugal e a Comunidade Internacional’ – nas vésperas da visita do Papa a Portugal, para acordar o Vaticano para o drama timorense.

      1992.03 – Participou e obteve o apoio da UP à Missão Paz, organizada pelo Dr. Rui Marques, que levou, em Março de 1992, cerca de uma centena de jovens de 24 países, a bordo do Lusitânia Expresso, até às águas de Timor.

      1992.04 – 4ªas Jornadas – ‘Timor-Leste, Preparar o Futuro’, para dar força e esperança à solidariedade, depois do Massacre de Santa Cruz.

      1993.07.22 a 29 – 5ªs Jornadas - ‘Timor-Leste e a Indonésia: Caminhos para a Liberdade, a Autodeterminação e a Democracia’. Realizadas alguns meses depois da prisão de Xanana Gusmão, estas jornadas visaram, mais uma vez, dar força à solidariedade e à Resistência Timorense e dar força também ao movimento pró-democracia na Indonésia. Pela primeira vez vieram a Portugal, de forma mais ou menos clandestina (Portugal não tinha relações diplomáticas com a Indonésia desde finais de 1975) para participar nestas jornadas, alguns democratas indonésios. Participaram também dois filipinos que, nos anos seguintes organizaram importantíssimas conferências de solidariedade nas Filipinas e noutros países do Sudeste Asiático que tiveram um impacto mediático enorme, em grande parte por terem sido reprimidas por pressão do Governo Indonésio do General Suharto sobre os governos dos países onde estas iniciativas tiveram lugar.

      1994.09.30 a 1994.10.02 – Conferência de Iserlohn, Alemanha, para dar força à solidariedade alemã, que estava moribunda, sete meses antes de uma visita do ditador indonésio à Alemanha programada para melhor a imagem do Presidente Suharto na europa.

      Quando a visita teve lugar, em Abril de 1995, a solidariedade alemã e internacional conseguiram transformá-la num pesadelo e uma humilhação para o General Suharto, Presidente da Indonésia, pelas visitas e espetáculos cancelados e pelas manifestações de rua a exigir a libertação de Timor e o fim da ditadura.

      1994.10.04 a 1995.03.26 – 6ªs Jornadas – Timor-Leste, uma Responsabilidade Internacional. Na linha da Conferência de Iserlohn, o objetivo foi dar força à solidariedade internacional.

      De Junho de 1995 a Agosto de 1997 – 7ªs Jornadas – ‘Libertar Timor-Leste e Apoiar a Democratização da Indonésia, duas Responsabilidades Internacionais’.
      Estas sétimas e últimas Jornadas de Timor da UP foram constituídas, sobretudo, por iniciativas internacionais, nomeadamente na Austrália e nos Estados Unidos, para mudar a opinião pública dos principais países apoiantes da ocupação indonésia.

      Nestas se inclui uma grande conferência que teve lugar na University of Technology de Sydney de 21 a 27 de Junho de 1996, com cerca de trezentos participantes, muitos dos quais vindos da Indonésia e alguns até de Timor ocupado. Proporcionou a realização da maior reunião de movimentos pró-democracia indonésios até então realizada.

      Destas Jornadas fez parte a organização de conferências em 15 universidades americanas e canadianas sobre Timor-Leste e a Indonésia, com a participação de representantes Timorenses, pró-democratas Indonésios e, também, de uma importante delegação indonésia enviada pelo Governo do General Suharto. As conferências tiveram lugar, nomeadamente, em Nova Iorque, Washington, Cambridge (Harvard U.), Providence (Brown U.), Baltimore (John Hopkins U.), Berkeley, S. Francisco e Vancouver. Participaram também representantes de sete universidades portuguesas.

      Este conjunto de iniciativas incluiu também contactos com congressistas americanos e, em 25 de fevereiro de 1997, a primeira audição do Caucus de Direitos Humanos do Congresso Americano sobre Timor-Leste onde testemunharam, entre outros, o Dr. Ramos Horta (Prémio Nobel da Paz de 1996) e o Professor indonésio George Aditjondro.

      De 1998 a 2000 apoiou e foi coorganizador informal de importantes reuniões que puseram em contacto líderes da Resistência Timorense com generais e outras personalidades indonésias altamente influentes.

      Para isso procurou e obteve o apoio e colaboração do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) de Lisboa e do seu Presidente, Álvaro de Vasconcelos, que assumiu, formalmente, a liderança na organização de três importantíssimas reuniões.

      Com a colaboração do Representante da Resistência Timorense (CNRT) em Portugal, Dr. Roque Rodrigues, do democrata indonésio Soei Liong Liem e de Barbedo de Magalhães o IEEI conseguiu organizar, com o correspondeste instituto holandês e a colaboração do Instituto de Estudos Estratégicos de Jakarta, Indonésia, um Seminário sobre The Relations Between the European Union and Indonesia in the Context of the Asian Crises.

      Neste Seminário, que teve lugar em 26 e 27 de Outubro de 1998 no Clingendael, em Haia, na Holanda participaram vários timorenses, alguns dos quais membros do CNRT (Conselho Nacional da Resistência Timorense), nomeadamente o Dr. Roque Rodrigues e proeminentes intelectuais e militares indonésios entre os quais o General Susilo Bambang Yudhoyono. Falar com este importantíssimo e promissor general indonésio era um dos principais objetivos desta iniciativa. O diálogo entre líderes da Resistência e este general e outras personalidades indonésias teve lugar e foi muito construtivo, apesar dum desagradável e perturbador incidente ocorrido no fim da 1ª reunião. Seis anos mais tarde, em 2004, o General Susilo Bambang Yudhoyono foi eleito Presidente da Indonésia (tendo sido reeleito, terminou o seu 2º mandato em 2014). Também participaram nesta reuniões especialistas e membros de outros institutos europeus de estudos estratégicos. Este Seminário abriu caminho a um frutuoso diálogo direto entre líderes timorenses e importantíssimas figuras indonésias, como era desejo da Resistência Timorense e, também de alguns destacados líderes indonésios.

      O CNRT, representado por Roque Rodrigues, Soei Liong Liem e Barbedo de Magalhães também participaram informalmente na organização de um segundo Seminário sobre The European Union and the Political Transition in Indonesia, realizado em 29 e 30 de março de 1999, em Londres, na Chatham House (Royal Institute of International Affairs).

      Neste Seminário participaram numerosos especialistas em estudos estratégicos e relações internacionais, incluindo o Diretor do IEEI, Álvaro de Vasconcelos e três conselheiros do Presidente Habibie, vários professores universitários e investigadores da Indonésia, e de outros países, um marechal e dois generais indonésios, entre os quais o General Kiki Syahnakri. Este, viria a ser, meses mais tarde, o último comandante militar indonésio em Timor-Leste e o primeiro a reconhecer a necessidade da entrada de forças internacionais no território para restabelecer a paz e a segurança. Foi graças ao General Kiki Syahnakri que as forças da INTERFET puderam desembarcar em Timor-Leste em 20 de Setembro de 1999 sem incidentes e pôr fim à destruição quase total do território que as forças ocupantes estavam a fazer, nesse Setembro negro de assassinatos, incêndios de casas e instalações e deportações em massa. Neste Seminário participaram, ainda, personalidades europeias e americanas e o Prémio Nobel da Paz timorense, Dr. José Ramos Horta, que teve numerosos encontros e diálogos com o General Kiki Syahnakri e com outros generais e personalidades indonésios. Participaram também outros líderes timorenses, como Armindo Maia, Lucas da Costa e Constâncio Pinto, cujas conversas com os generais e outros líderes indonésios por certo terão influenciado o curso da história.

      Do mesmo modo, Barbedo de Magalhães foi também um coorganizador informal da conferência sobre The European Union, East Timor and Indonesia: Shaping a New Future, realizado em Bogor, Indonésia, de 2 a 4 de Maio de 2000, que contou com a participação de personalidades do maior relevo da política indonésia e timorense e importantes figuras da UNTAET (United Nations Transitory Administration in East Timor).
      Nesta conferência Barbedo de Magalhães foi, juntamente com o Professor Peter Carey, do Trinity College, Oxford University, crítico comentador da sessão sobre Building the State and a democratic political system in East Timor.

      Esta conferência terminou com um jantar no Palácio Presidencial (Residência de Verão) de Bogor, presidido pelo Presidente da República da Indonésia Abdurrahman Wahid (Gus Dur).
      Para grande surpresa sua (e de todos os convivas) no fim do jantar Barbedo de Magalhães foi chamado à mesa de honra porque o Presidente Wahid queria falar com o seu amigo do Porto, que conhecera em Ithaca, E.U.A., na Cornell University, no verão de 1992, e que o convidara, nessa altura, a vir a Portugal em 1993 para participar nas 5ªs Jornadas de Timor da Universidade do Porto.

      O Presidente Indonésio, que estava quase completamente cego e por isso não vira o subscritor deste CV quando entrou na sala, não esquecera as duas conversas que, em privado, tivera com Barbedo de Magalhães, e nas quais fora claro um consenso quanto à necessidade da Indonésia se libertar do problema de Timor mediante um referendo sob os auspícios das Nações Unidas.

      Porto, 15 de Fevereiro de 2016

      António Pinto Barbedo de Magalhães
      Professor Emérito da Universidade do Porto, na FEUP

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      Portuguese
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      Latin